Você faz tudo certo. Respira fundo quando sente a ansiedade chegar. Tenta não pensar. Distrai com alguma coisa, sai para caminhar, dorme mais cedo. E ela volta.
Não é falta de força de vontade. Não é fraqueza. E provavelmente também não é "coisa da sua cabeça" como algo que você poderia simplesmente decidir parar de sentir.
O problema é que o mecanismo que mantém a ansiedade não está onde você está procurando.
O que o sistema nervoso aprende
O sistema nervoso aprende com aquilo que vivemos.
Ele não registra só os acontecimentos dos quais conseguimos nos lembrar com clareza. Também aprende a relacionar situações, sensações físicas, emoções e expectativas.
Quando algo é percebido como ameaçador, o corpo se prepara para reagir:
- O coração acelera;
- A respiração muda;
- Os músculos ficam tensos;
- A atenção se volta para aquilo que parece representar algum risco.
Essa resposta é importante. Ela existe para nos proteger.
Quando uma dessas experiências acontece e não é processada até o fim, seja porque foi intensa demais, rápida demais, ou porque não havia ninguém ali para ajudar a digerir, ele guarda a resposta.
A partir daí, o sistema nervoso passa a repetir essa forma de agir, automaticamente. A pessoa nem sempre percebe essa ligação. O corpo reage antes que consiga entender o que aconteceu.
Isso é um mecanismo neurológico.
O sistema nervoso não distingue o que é memória do que é a situação presente quando está em modo de alerta.
Para ele, a ameaça é real: mesmo que o perigo não exista mais, mesmo que nunca tenha existido ou seja completamente desproporcional à situação que a pessoa está vivendo, naquele momento.
A ansiedade que aparece sem gatilho claro é, quase sempre, a expressão de um padrão que o sistema nervoso consolidou e passou a reproduzir no modo automático.
Isso não significa que toda ansiedade venha de um único acontecimento ou que exista sempre uma lembrança escondida por trás do sintoma.
Significa apenas que o modo como reagimos hoje também pode ter relação com o que aprendemos a esperar ao longo da vida.
Por que relaxar não resolve
Quando você respira fundo, tenta se distrair ou força sua mente a "pensar diferente", está trabalhando no nível consciente. O córtex pré-frontal, a parte do cérebro responsável pelo raciocínio, planejamento e controle voluntário, está tentando intervir.
Mas o padrão de ansiedade não está guardado aí.
Ele está nas camadas subcorticais do sistema nervoso: estruturas mais antigas, mais rápidas, e que não respondem a instrução racional.
O sistema límbico, a amígdala, o tronco cerebral, essas estruturas disparam "alertas" antes que você tenha tempo de pensar. A resposta de ansiedade já começou antes de você perceber que estava ansioso.
É por isso que "tentar relaxar" funciona às vezes, principalmente quando a situação não ativa o padrão com força suficiente. Mas não funciona tão bem quando o padrão está profundamente consolidado. Você não pode conscientemente mandar o sistema límbico parar. É como tentar convencer o seu joelho a não dobrar quando o médico bate com o martelinho.
Por isso, alguém pode saber racionalmente que está seguro e, ainda assim, sentir o coração acelerado, o peito apertado, uma inquietação difícil de explicar ou a vontade irresistível de roer unhas ou cutículas, entre tantas outras manifestações da ansiedade.
A mente pode compreender que não há perigo, enquanto o corpo continua agindo como se precisasse se proteger.
Relaxar pode diminuir o estado de alerta naquele momento. No entanto, quando a ansiedade se torna recorrente, talvez seja necessário compreender o que continua fazendo essa resposta reaparecer.
O que mantém o padrão vivo
Primeiro: ele nunca foi interrompido na origem. A experiência que o gerou não foi processada. Ela está ali, em suspensão, e o sistema nervoso continua respondendo a essa experiência como se ela ainda estivesse acontecendo.
Segundo: cada vez que a resposta é ativada e você tenta suprimi-la, ela não se resolve. Ela se reforça e o sistema nervoso aprende que aquele estímulo é perigoso o suficiente e que por isso, precisa gerar uma resposta potente. Na próxima vez ele responderá ainda mais rápido, com mais intensidade.
Terceiro: a evitação. Quando você começa a evitar situações que ativam a ansiedade, você nunca dá ao sistema nervoso a oportunidade de aprender que o perigo não é real. Quando uma situação provoca medo e a pessoa decide não enfrentá-la, o alívio costuma aparecer rapidamente. Esse alívio faz o organismo entender que sair daquela situação foi necessário para permanecer em segurança.
Com o tempo, outras situações parecidas também começam a ser evitadas. A pessoa deixa de ir a determinados lugares, recusa convites, adia decisões ou limita atividades que antes faziam parte da sua vida.
Aos poucos, a tentativa de impedir que a ansiedade apareça começa a ocupar cada vez mais espaço no cotidiano. E bloquear a ansiedade com a evitação pode gerar outros tipos de transtornos que antes, talvez, não existissem.
A evitação pode ser parte de um processo de terapia, mas não deve ser todo ele, nem ser exclusiva. Isso pode acabar como "despir um santo para vestir outro".
Trabalhar a ansiedade não é só aprender a controlar melhor o que você sente. É reorganizar o padrão que está gerando o que você sente.
O que muda quando o trabalho, quando a terapia, vai na direção certa
Isso exige acessar o nível onde o padrão está guardado, não o nível onde ele aparece. E exige uma abordagem que saiba a diferença entre os dois.
Não é parte de quem você é. É um padrão aprendido. E padrões aprendidos podem, com o trabalho certo, ser reorganizados.
É aqui que se torna importante que você compreenda que a ansiedade é um sintoma que se manifesta em seu sistema nervoso. Você pode tratar o sintoma, deve tratar. Mas se não buscar compreender a causa do "sintoma ansiedade", provavelmente ela irá retornar.